A forma como vem sendo conduzida a migração dos profissionais de assistência em saúde do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG) para o Hospital Universitário dos Servidores do Estado (HUSE) é motivo de profunda preocupação e indignação. Trata-se de um processo marcado por desorganização, ausência de planejamento adequado e desconsideração com os profissionais de saúde, com os estudantes em formação e, sobretudo, com a população atendida.
A transferência de equipes, que deveria ocorrer de maneira estruturada, gradual e segura, tem resultado no fechamento de leitos de clínica médica no HUGG, impactando diretamente a capacidade assistencial da instituição. Como consequência imediata, observa-se um cenário de superlotação no serviço de pronto atendimento, com pacientes aguardando por mais de seis horas para serem acomodados em leitos de internação — uma situação que fere princípios básicos de dignidade, eficiência e qualidade no cuidado em saúde.
Além disso, o cancelamento de cirurgias decorrente da indisponibilidade de leitos evidencia a gravidade do problema. Pacientes que já enfrentam longas filas de espera veem seus procedimentos adiados, muitas vezes sem previsão de remarcação, o que agrava quadros clínicos e aumenta o risco de complicações evitáveis.
Outro ponto crítico é a sobrecarga imposta às equipes assistenciais. Profissionais anteriormente dimensionados para acompanhar entre 14 e 15 pacientes agora são responsáveis por 20 ou mais, em um contexto de crescente complexidade clínica. Tal cenário compromete de maneira direta a qualidade da assistência prestada, eleva o risco de erros e eventos adversos, e expõe tanto pacientes quanto trabalhadores a condições inseguras e insustentáveis.
No âmbito acadêmico, a situação é igualmente alarmante. O HUSE, enquanto instituição que passa a assumir papel formador ao receber profissionais e estudantes oriundos do HUGG, não dispõe de espaços adequados para convivência acadêmica, discussão de casos clínicos e realização de atividades de ensino, como aulas e seminários. Essa deficiência foi recentemente constatada por alunos de Medicina que, na última semana, visitaram o hospital acompanhados pelo Gerente de Ensino e Pesquisa da instituição. A ausência de infraestrutura mínima para o ensino compromete diretamente a qualidade da formação médica e fere a própria essência de um hospital universitário, que deve integrar assistência, ensino e pesquisa de forma indissociável.
Soma-se a isso a ineficiência no registro e na gestão das informações dos pacientes. Diferentemente do HUGG, que conta com prontuário eletrônico estruturado por meio do sistema AGHU, o HUSE ainda opera sem um sistema equivalente. A inexistência de prontuário eletrônico impacta negativamente a continuidade do cuidado, dificulta o acesso rápido a informações clínicas essenciais, aumenta o risco de falhas na comunicação entre equipes e compromete a segurança do paciente. Em um cenário já sobrecarregado, a dependência de registros manuais representa um retrocesso inaceitável do ponto de vista assistencial e tecnológico.
Cabe ressaltar que, ainda na fase de discussão do processo de fusão e migração, foi apresentado um suposto estudo técnico elaborado pela Pró-Reitoria de Planejamento, amplamente criticado por diversos setores da comunidade acadêmica e assistencial. À época, já se apontavam fragilidades metodológicas, inconsistências operacionais e uma preocupante desconexão com a realidade prática dos serviços. O que se presencia agora é a materialização dessas críticas: uma transição caótica que confirma, de forma inequívoca, que o referido relatório técnico foi conduzido sob uma lógica de planejamento deficiente, marcada por uma condução gerencial que beira o amadorismo.
Esse cenário contrasta de maneira evidente com discursos institucionais recentes que defendem a construção de uma “universidade inclusiva”. Na prática, entretanto, o que se observa está longe de qualquer ideal de inclusão — seja para pacientes, que enfrentam barreiras de acesso e atraso no cuidado, seja para estudantes, privados de condições adequadas de aprendizagem, ou para profissionais, submetidos a um ambiente de trabalho precarizado. A discrepância entre discurso e realidade expõe uma incoerência preocupante na condução das políticas institucionais.
Não se pode ignorar o impacto humano dessa condução inadequada. Profissionais exaustos, atuando sob pressão constante e sem condições ideais de trabalho, dificilmente conseguem manter o padrão de excelência exigido na assistência hospitalar. Estudantes perdem oportunidades fundamentais de aprendizado em um ambiente estruturado, enquanto pacientes são submetidos a atrasos, incertezas e atendimento aquém do que é preconizado pelas boas práticas em saúde.
A ausência de transparência no processo, bem como a falta de diálogo efetivo com as equipes assistenciais e com a comunidade acadêmica, reforça a percepção de que decisões vêm sendo tomadas de forma unilateral, sem a devida consideração das implicações operacionais, assistenciais e educacionais.
Diante desse cenário, é imprescindível que haja uma revisão imediata da estratégia adotada para a migração entre as instituições. É necessário restabelecer a capacidade assistencial do HUGG, reabrindo leitos, reorganizando fluxos e garantindo condições adequadas de trabalho para as equipes. Paralelamente, qualquer processo de transição deve ser conduzido com planejamento técnico rigoroso, cronograma claro, comunicação transparente e participação ativa dos profissionais e estudantes diretamente envolvidos.
A saúde pública e a formação médica não podem ser conduzidas sob improviso. O que está em jogo não é apenas a logística de transferência de recursos humanos, mas a segurança de pacientes, a qualidade da formação de futuros profissionais e a integridade de todo um sistema assistencial e acadêmico. É urgente que medidas corretivas sejam adotadas antes que os danos se tornem ainda mais profundos e irreversíveis.
Médicos e Professores da Faculdade de Medicina da Unirio.



